UM QUIOSQUE, UM MUSEU E UMA CASA DE CHÁ

Atualizado: 13 de ago. de 2020


Depois do perfil do instagram do Diário de Pernambuco veicular uma matéria sobre a "revitalização" dos quiosques da Orla de Boa Viagem a internet se dividiu entre os que amaram e odiaram a proposta de intervenção. Dentre tantas considerações sobre a semelhança do novo quiosque com um brinquedo infantil e sobre como aquele novo artefato modificaria a paisagem da orla, uma inquietação chamou nossa atenção:



Até que ponto um novo edifício precisa se relacionar com a história e cultura do local que está inserido?

 

No curso de arquitetura nós aprendemos uma série de normas, estudamos proporção, história, representação... mas, em nenhuma dessas aulas você aprende a fórmula perfeita para projetar uma obra que vai agradar a todos - talvez porque isso não exista (!), e se existisse, eu tenho certeza que seria a disciplina mais chata do curso. A liberdade projetual é o que mais nos aproxima da atividade artística e não estamos aqui para contestá-la.


Mas, se com grandes poderes também vem grandes responsabilidades, temos que saber que o fatídico dia que alguém vai dizer que seu projeto é feio vai chegar (Por isso que seus professores vivem te preparando todo semestre para este momento, rs). Eu já andei alguns muitos quilômetros para ver uma obra de arquitetura, já me emocionei quando cheguei lá, e já perdi a conta de quantas vezes ouvi:

"Sério? Era isso que a gente veio ver?" Já aconteceu em obra de Lina, Siza, Borsoi... vai acontecer com suas também, acredite...

Eu não sei quem fez o projeto do quiosque que foi parar na berlinda. Honestamente, eu nem cheguei a pesquisar. Em minha defesa, esse texto não é para dar meu veredicto sobre a obra, ou fazer uma análise de um projeto que não tive acesso por completo.... Me interessa aqui, refletir sobre essa necessidade, levantada por muitos, do edifício estabelecer relações com seu entorno, história e cultura locais. E, para isso, separei dois exemplos que podem nos ajudar nessa discussão.


A primeira obra é o Centro Georges Pompidou, projeto de Renzo Piano e Richard Rogers, em 1977, para uma área central da capital francesa.


Centro Georges Pompidou e seu entorno imediato. Fonte no link da imagem.


No Centro Georges Pompidou os elementos que se contrapõem à antiga vizinhança exercem, além de sua função prática, o papel de comunicar a intenção da obra. O edifício passa uma mensagem de ousadia, avanço tecnológico e torna-se intencionalmente em marco visual que contrasta com as preexistências do local e ressignifica uma área degradada da cidade.


A segunda é a Casa de Chá Boa Nova, projetada pelo arquiteto português Álvaro Siza em 1963. Fica nítido neste projeto a atitude extremamente respeitosa do arquiteto em relação ao sítio e a tradição construtiva do local.

Casa de chá Boa Nova. Projeto de Álvaro Siza. Fonte no link da imagem.


O que estas obras de arquitetos célebres - e tão distintas - nos falam sobre os quiosques da praia?

Podemos observar que Siza agrega de forma sutil e não literal elementos que julga essenciais para a integração da obra à paisagem. A casa de chá Boa Nova obra repousa delicadamente sobre as rochas, a coberta tem uma inclinação suave que a faz praticamente desaparecer. Enquanto isso, o Pompidou, emerge imponente no centro histórico de Paris, ninguém o confunde com obras do passado, nem tampouco consegue passar despercebido.


Apesar de terem partidos diferentes, os dois projetos convergem em uma intencionalidade: se integrar a paisagem - seja por analogia (Casa de Chá), seja por contraste (Centro Georges Pompidou). Ambos, buscam contar uma história simbólica e relevante, adotando posturas quase que opostas. Enquanto o projeto de Siza flerta carinhosamente com a topografia e com a cultura locais, o Pompidou é mais enérgico! Questiona e discorda dos seus vizinhos, mas com argumentos sólidos.


A escolha do tipo de conversa entre o novo edifício e seu entorno é de quem projeta, mas as críticas ao projeto dos quiosques na orla da praia de Boa Viagem vão além de uma simples questão de gosto.

Imagem do projeto dos novos quiosques divulgadas pela Prefeitura do Recife. Fonte no link da imagem.


O modelo, além de ser totalmente distinto dos antigos quiosques, é repleto de elementos que não apresentam conexão nem com o local, nem ENTRE SI. Peças coloridas, revestimento "canjiquinha", granito escuro e um número "gigante" feito em aço inoxidável fixado em uma superfície (aparentemente) de concreto, tudo isso foi colocado em um só projeto. Não é a toa que ele passa uma mensagem confusa a quem observa com um olhar um pouco mais crítico.


O Pompidou não faz referências ao entorno, mas ele é coerente em si mesmo. Suas partes conversam entre si e o resultado é um objeto que apresenta um alto grau de unidade. Todas as partes da obra estabelecem uma relação de dependência: nada sobra e nada falta.


No debate sobre os quiosques ninguém parece estar cobrando uma relação tão íntima e profunda com o lugar quanto a do projeto de Siza. Mas, percebe-se que o projeto apresentado não corresponde ao esperado por uma coletividade - vide todas as críticas que surgiram poucas horas após sua publicação.


Após a repercussão do caso, a Prefeitura do Recife se pronunciou em nota com a informação de que as imagens apresentadas são "apenas ilustrativas" e não se referem a um projeto aprovado na PCR. Mas, isto não torna o exercício de debate sobre as imagens totalmente inválido:


Talvez as reações adversas indiquem que se espera que esses edifícios tragam, SIM, características que o relacionem com valores culturais já consolidados. Inclusive, talvez esta seja uma pista valiosa para os arquitetos que de fato irão desenvolver o projeto. O que me parece, nesse caso específico, é que projetar algo que se relacione com o entorno ou ao menos não interfira de forma contrastante na paisagem seja a escolha mais prudente de partido.


O que se sabe até agora é que órgãos como Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil e Instituto de Arquitetos do Brasil emitiram notas contrárias à execução do projeto tal qual foi apresentado, e ressaltam a importância de um amplo debate com a sociedade antes da aprovação de um projeto em uma área tão importante para a cidade.


Por aqui, a gente fica esperando que a "revitalização dos quiosques" caia em boas mãos, e torcendo que essa escolha seja feita em um concurso de projeto. E você? O que acha?


Por Patricia Ataíde Solon de Oliveira