Homem-aranha no aranhaverso e a diversidade cultural urbana

Atualizado: 3 de nov. de 2020

Quando o filme Homem-aranha do aranhaverso entrou em cartaz todo mundo ficou muito impressionado com a qualidade da história, o carisma do protagonista e as diversas técnicas de animação que, misturadas, davam a sensação de realmente ver um quadrinho ganhando vida. O filme ganhou Oscar e acumula 97% de críticas positivas do Roten Tomatoes e não é raro ver gente dizendo que ele é “o melhor filme sobre o personagem”. Isso é muita coisa em se tratando de um herói tão querido. Mas, para além de todos os elementos cinematográficos outra coisa me encheu os olhos quando vi o filme: a Nova Iorque retratada nele é, urbanisticamente falando, muito interessante.


A vista daí é linda, né Miles?


O protagonista Miles é um adolescente negro, com ascendência porto-riquenha. Ele vive no Brooklyn e somos apresentados ainda no começo do filme à sua maneira preferida de se expressar artisticamente. Através de colagens de sua arte pelas ruas do bairro descobrimos que Miles tem uma identidade secreta antes mesmo de se tornar o Homem-aranha...


Ele cola adesivos pelo bairro (e inclusive é repreendido pelo pai por isso) e vemos nessa prática um exemplo de como a apropriação artística do espaço acontece, também, quando não se pede licença, quando se desafia a lógica até então dominante. Qualquer semelhança com o que os pichadores fazem pelas ruas não é coincidência. Alguns grupos, que se valem desta maneira para se expressar, têm papel interessante tanto na composição estética das ruas dos grandes centros quanto no desafio aos agentes com mais capital cultural e força para impor sua arte, sua maneira de ver e ocupar o espaço urbano.


Quando pensamos no espaço público como palco das intervenções artísticas urbanas o grafite também aparece como expressão importante. No filme ele tem um papel de destaque na figura do tio do protagonista, que o ajuda a compreender algumas de suas angústias e as colocar pra fora através dessa arte. Foi essa, também, a estratégia de divulgação do filme no Brasil na ocasião de seu lançamento, com grafites em exposição em 6 capitais.


Grafite de divulgação do filme em Manaus feito pelos artistas Alessando Hipz e Adonay Garcia


Como o grafite e a pichação ocupam lugares distintos na percepção das pessoas, deve-se elucidar suas especificidades. Há, inclusive, uma diferença no que é o pixo (com x) e o picho (com ch). A pichação, com ch, se refere a frases e outras inscrições legíveis para outras pessoas alheias ao grupo. Já a palavra com x se refere àquela grafia que só os membros do próprio movimento entendem e que também envolve a dinâmica de busca por lugares altos, com grande visibilidade e difícil acesso. Isso acaba funcionando como um questionamento às estruturas da paisagem urbana.


Por meio da pixação, esses jovens se inserem no espaço urbano, do qual se sentem excluídos
Léo Ramos Chaves, 2019

O grafite, por sua vez, é uma forma de arte urbana caracterizada por desenhos que podem ter cunho crítico ou não. Surge em Nova Iorque na década de 1970 e ocupa no imaginário um lugar de arte que o picho (ou pixo) não têm. Isso se dá pelo entendimento de que o grafiteiro precisa de autorização para realizar sua intervenção (o que se define como muralismo).


No Brasil as intervenções artísticas urbanas aparecem no período da ditadura, como um movimento de oposição a todas as proibições estabelecidas pelo governo militar de que as ruas fossem ocupadas. Hoje elas funcionam tanto enquanto instrumento de questionamento ao que está posto quanto como alternativa aos artistas que não encontram espaço para mostrar seu trabalho em outros circuitos. A rua, como espaço de encontro e interação serve, também, como lugar de aproximação entre a arte e as pessoas.


Claro que o grafite e a pichação não são reconhecidos por todos como expressões válidas de arte. E isso fala muito sobre os preconceitos raciais e econômicos atrelados aos que produzem esse tipo de obra. Mas a rua é espaço livre público e, como tal, necessita que seu significado cultural e dimensão política sejam considerados ao se julgar o que é (ou não é) interessante de se ver nela. Qualquer tipo de intervenção relacionada ao picho (ou pixo) é considerada crime ambiental (Lei federal nº 9.605/98). Podem ser aplicadas multas ou pena de até 1 ano de prisão para quem intervir na paisagem sem autorização prévia. Caso essa intervenção ocorra em edificações tombadas a pena pode ser maior.


Existem várias formas de arte envelhecendo no museu, onde poucas pessoas terão acesso, o picho e o grafite não, ambos expostos em lugares públicos onde TODOS podem ver e se sentir inclusos que é o mesmo que esta animação faz. O pixo e o grafite assim como Homem-aranha no Aranhaverso são (uma das poucas) formas de democratizar a arte e de dar visibilidade a quem muitas vezes é invisível.
Alan Jesus, 2019

As discussões sobre a validação dessa forma de arte esquentaram com a Bienal de Arquitetura de Veneza, que em 2019 contou com o trabalho The encryption of power. Trata-se de um mapa que representa a evolução histórica do pixo na cidade de São Paulo e permite localizar 4 mil pixações realizadas nos últimos 30 anos. Para sua realização foram utilizadas notícias e também postagens do Instagram que contavam com as tags “pixo”, “pichação” e “xarpi”. Esta é uma forma de manifestação tipicamente brasileira e o projeto permitiu visualizar sua abrangência.



Mapa "The encryption of power" na

Bienal de Arquitetura de Veneza


Segundo Carlos Zibel (2019), “as linguagens do grafite e do pixo passaram a integrar o repertório da arte contemporânea, mas isso não elimina as tensões que a pixação indevida gera no espaço urbano. Justamente pelo caráter transgressor, os pixadores desempenham papel importante na investigação dos limites artísticos”. E, embora este tipo de intervenção tenha um caráter muito contemporâneo, sabe-se que nas escavações de Pompéia foram encontradas inscrições nas paredes contra os senadores. Esse caráter transgressor se consolidou, nos dias atuais, como parte da história do urbanismo.


Para encerrar este assunto, por enquanto, recorro à (minha querida) Jane Jacobs. Ela defendia que a heterogeneidade da cidade tinha que ser preservada para a garantia de sua diversidade. Para ela, as ruas são espaços de desenvolvimento do sentido de comunidade, do encontro e da expressão pública. Na cidade de hoje tem que ter espaço para todo tipo de arte, não só para as que a lógica dominante legitima. Que tenhamos sensibilidade para admirar a arte que vem das ruas e que é tão importante na composição das nossas paisagens urbanas pois, sim, as ruas falam!


Diquinha ;)